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A pele de pessoas trans e suas especificidades

  • 15 de jun. de 2021
  • 8 min de leitura

Atualizado: 23 de jun. de 2021


Crédito: @kylewilliamurban

Índice:

Um indivíduo que se identifica com o seu sexo biológico é chamado de “cisgênero” ou “cis”. Por outro lado, um indivíduo que não se identifica com o sexo afirmado ao nascer é chamado de “trans”, um termo que abrange pessoas travestis, transgêneras e transexuais. Dessa forma, para que essa pessoa se sinta satisfeita com a sua identidade pessoal, ela pode recorrer a métodos como a terapia hormonal (TH), a cirurgia de redesignação sexual (caso ela deseje) e a terapia de abordagens psicossociais.

A endocrinologista Janaína Petenuci explica que mulheres trans realizam a terapia antiandrogênica, além da introdução de estrogênio. Já homens trans utilizam apenas testosterona. “Os hormônios utilizados na hormonioterapia são testosterona (para induzir o desenvolvimento dos caracteres sexuais secundários masculinos nos homens transexuais), estrogênio (para induzir o desenvolvimento dos caracteres sexuais secundários femininos nas mulheres transexuais e travestis) e antiandrógeno, que pode ser utilizado para atenuar o crescimento dos pelos corporais e as ereções espontâneas”, declara.

Os pacientes precisam ser acompanhados de forma multidisciplinar, com uma equipe que fornece avaliações psicológica, psiquiátrica, clínica, urológica, endocrinológica, fonoaudiológica e social. “Com o início da terapia hormonal, os pacientes podem ter piora do quadro de ansiedade e depressão, devido à mudança tanto hormonal, quanto do corpo”, menciona a endocrinologista, afirmando também que as queixas mais comuns de pessoas trans são relacionadas à disforia corporal (essa condição faz com que os indivíduos se preocupem de forma excessiva com “imperfeições” em sua aparência física) e à disforia com a genitália, além de elas não se sentirem bem com o seu corpo.

Pessoas trans que passam pela hormonioterapia podem apresentar uma série de ideias com emoções, sentimentos e pensamentos mais intensificados. Esses sentimentos podem afetar o comportamento e o relacionamento com as pessoas. Mesmo não apresentando esses sintomas, a psicoterapia para pessoas em transição hormonal é recomendada pelo Conselho Federal de Medicina.

A dermatologista Sílvia Maria Rodrigues, em relação aos cuidados com a pele, declara que as pessoas trans devem usar protetor solar diariamente e produtos como sabonete e hidratante específicos para cada tipo de pele. “Pacientes com pele negra costumam ter mais tendência a apresentarem manchas escuras residuais de acne”, aponta.


Como são os cuidados praticados por quem passa pela terapia hormonal?

A advogada, Ana do Canto, de 46 anos, afirma que realiza o seu tratamento hormonal acompanhada de uma equipe constituída por especialistas como endocrinologistas e psiquiatras. Sobre a terapia hormonal, Ana conta que “a pele passa a ter a textura da pele de qualquer mulher, uma vez que a ativação do estrogênio e progesterona fornece a maciez e a suavidade da pele”.

Ela também destaca que utiliza vários tratamentos e produtos que têm o objetivo de deixar a sua pele perfeita, como Laser de CO2 (indicado para promover o rejuvenescimento da pele por meio de ondas de laser); preenchimentos faciais; espumas faciais compostas de vitamina C pura; ácidos; sérum; água termal; entre outros, além de não se expor ao sol e se proteger com um filtro solar de fator de proteção 90. Ana declara que não costuma usar maquiagem em seu dia a dia, optando por utilizar esses cosméticos apenas em ocasiões especiais.

Ana utiliza vários tratamentos estéticos (Arquivo Pessoal)

A assessora parlamentar Amanda Rodrigues, de 38 anos, explica que se automedica, já que, para ela, “no ambulatório, quase nunca existem vagas pela demanda ser muito alta. E também há desinformação e má vontade em alguns postos de saúde, o que também não ajuda”. Além disso, ela informa que o processo de tratamento hormonal, em seu início, foi complicado, visto que perdeu sua libido e teve o seu psicológico afetado.

No entanto, ela observa que houve uma melhora em sua pele que passou a apresentar resultados satisfatórios. “Está mais viçosa. Antigamente, eu sofria muito por ter muita foliculite (inflamação que ocorre na raiz dos pelos), além de fazer, com muita frequência, depilação a laser, que me queimava e agredia a pele. Isso porque não é o laser adequado no mercado, pois muitas mulheres trans negras não têm acesso a esse recurso e as clínicas não investem em peles negras. Mas agora, com a junção de hormônio e bloqueador, estou tendo resultados bons que não tinha há uns dois anos realizando a terapia hormonal”, comenta, lembrando que ainda não procurou um dermatologista porque espera completar três meses de tratamento.

Amanda explica que seus cuidados diários com a pele envolvem “evitar dormir de maquiagem, lavar o rosto com sabonete próprio, utilizar argilas e uma máscara preta para remover cravos, esfoliar uma vez por semana e dormir a cada dois dias com bepantol (cosmético que oferece hidratação e estimula a regeneração da pele) aplicado em sua face”. Quando ela faz depilação a laser, aplica, durante a noite, bepantol em seu rosto, por uma semana, pois as luzes geralmente queimam a sua pele.

"As clínicas não investem em peles negras" (Arquivo Pessoal)

A modelo Victoria Asahi Miranda, de 28 anos, declara que, a princípio, recebeu acompanhamento médico, realizado por um endocrinologista, durante o seu tratamento hormonal. “Mas, muitas vezes, precisei me automedicar, pois a maioria dos médicos no Brasil tratam nossa terapia de maneira muito generalista. Atualmente, me adaptei a uma terapia, estou consistente nela há mais de dez anos e passo no médico apenas para avaliar meus exames e taxas hormonais”, explica.

Victoria comenta que sua adaptação ao tratamento hormonal ocorreu sem muitas complicações, mas ela também diz que uma hormonioterapia pode apresentar variações hormonais com “altos e baixos”. “No começo, minha pele afinou bastante e se tornou bem mais sensível e frágil, sendo suscetível a arranhões, cortes e hematomas. Também apareceram algumas estrias rapidamente nas partes onde cresci, como coxas e bumbum, porém, isso se estabilizou”.

“A pele do rosto ficou mais equilibrada e, com o tempo, mais viçosa, hidratada e macia. Também noto uma firmeza contínua e um clareamento no tom de pele durante o uso compulsório. Além disso, houve uma diminuição dos pelos corporais e um aumento no crescimento de cabelo”, ela completa, informando sua rotina de cuidados com a pele com uso de protetores solares; cosméticos com vitamina C; ácido retinóico (reduz manchas, suaviza rugas e trata a acne), hidratantes na forma de óleo; cremes com ativos para partes específicas, como o pescoço e o colo; esfoliantes para os pés e corpo. “E vez ou outra, cosméticos com ativos clareadores, procurando também usar maquiagens que tragam benefícios para a pele como BB cream, cosmético multifuncional que oferece hidratação, uniformização da pele e proteção solar”.

Victoria também recorre a tratamentos com laser; microfusão de medicamentos na pele (MMP - que administra substâncias na pele, também aplicado no cabelo e unhas, com o objetivo de tratar calvície, cicatrizes, melasma, entre outras condições); preenchimentos; depilação a laser e dermaroller (aparelho que possui microagulhas que estimulam a produção de colágeno e combate as rugas e as linhas de expressão).

"Muitas vezes, precisei me automedicar" (Arquivo Pessoal)

O técnico em mecânica Benjamin Kato, de 25 anos, realizou o seu tratamento hormonal acompanhado de especialistas, pois tem diabetes e sempre quis cuidar de sua saúde. “Está indo tudo de acordo com o esperado, esperei quatro anos para começar para ter noção das consequências e, então, estava preparado para tudo”.

Benjamin afirma que sua pele está mais oleosa e com uma aparência mais “grossa”, tendo também acne e cravos. “Consultei uma dermatologista e comecei tratamento com roacutan (medicamento indicado para caso de acne severa), mas interrompi por falta de atenção, porém estava sendo eficaz. Estou fazendo skincare também e passo diariamente gel secante, água micelar e tônico para espinhas. Às vezes, utilizo esfoliante e aplico minoxidil para o crescimento de barba”, ele explica, evidenciando que a acne inflamada e cicatrizes de espinhas o incomodam, o que resulta na aplicação de maquiagem e do gel secante.

Benjamin sempre quis cuidar de sua saúde (Arquivo Pessoal)

E quem não realiza mais o tratamento hormonal ou nunca o realizou?

Marina Reidel, de 50 anos, professora e diretora do Departamento de Promoção de Direitos LGBT do Ministério da Mulher, Família e dos Direitos Humanos, não teve atendimento médico, foi orientada por suas amigas travestis. “Eu tomei por dois anos no início do processo de transição e depois parei. Faz 15 anos que não tomo mais hormônios”, afirma, lembrando que sua pele apresenta algumas manchas e sardas, o que Marina acredita que estejam relacionadas a sua origem alemã, além de acne e cravos.

Marina afirma que, como parte de sua rotina de skincare, ela toma banho morno; utiliza sabonetes de marcas como Natura ou Dove e, às vezes, de glicerina (que, por ser hidratante, ajuda a manter a umidade da pele e a tratar áreas ressecadas); hidrata a pele com creme ou óleo; aplica filtro solar fator 60. “Sobre os cuidados faciais, eu lavo com água fria à noite, passo creme em dias alternados e também faço limpeza de pele com esfoliação e depois hidratação. Retiro a maquiagem com lenços umedecidos e às vezes faço depilação a laser para retirar pelos no rosto”, explica.

Faz 15 anos que Marina não toma hormônios (Arquivo Pessoal)

Matheus Lolla, de 19 anos, é modelo, maquiador e graduando em Design de Moda. "Sou trans não binário de gênero fluido, o que significa que eu literalmente fluo entre o que é dito como masculino e feminino. Com o passar dos anos, notei que iniciar a transição não era algo que eu gostaria de fato, por mais que, às vezes, eu ainda pare e pense um pouquinho sobre. Porém, tenho algumas amigas que são mulheres trans e sei que a grande maioria começa o tratamento hormonal por conta própria, com o uso de anticoncepcionais, o que é perigoso. Mas é a maneira mais fácil e barata que elas encontram para alcançarem seus ideais, visto que, infelizmente, reposição hormonal é feita com injeções caras e acompanhamento de um médico endocrinologista”.

Matheus conta que tinha muita acne no início de sua adolescência. “Por mais que minha aparência não seja tão ‘masculina’, as minhas taxas de testosterona são bem altas, o que me levou a ter espinhas estratosféricas com uns 11 anos e barba aos 13. Eu lembro que em um dos meus conflitos internos em relação a minha identidade de gênero, eu cogitei me automedicar com anticoncepcionais porque via vários relatos de mulheres trans que diziam que seus rostos ficavam como seda logo no primeiro mês de tratamento e que os pelos da barba ficavam fracos e caiam ou paravam de crescer. Parecia um sonho para mim e não vou mentir, por mais que eu não esteja transacionando, ainda me parece”, afirma.

Por causa de sua acne, houve uma época em que Matheus evitava entrar em lojas com luzes fortes e brancas ou com muitos espelhos, pois ele temia que alguém visse o seu rosto. Além disso, ele também ficava desconfortável em olhar seu próprio reflexo. “Por fim, depois de alguns anos, me consultei com uma dermatologista pela primeira vez, quando as espinhas já tinham diminuído drasticamente (eu fazia muitas receitinhas caseiras). O tratamento indicado foi o básico: a aplicação de um gel de limpeza e de um protetor solar, específicos para pele oleosa, todos os dias. Além de a profissional ter recomendado depilação a laser na área da barba, por conta da foliculite”.

Matheus declara que é rigoroso com tudo o que aplica em sua pele, sempre lendo as composições dos cosméticos e seguindo também receitas caseiras. Todos os dias, ele lava seu rosto com gel de limpeza profunda, indicado para peles oleosas, e aplica um hidratante próprio para o seu tipo de pele, massageando o seu rosto e pescoço. “Eu sou a louca do skincare, então qualquer fórmula que eu goste, estou já almejando para ter em minha coleçãozinha. Mas os meus cosméticos favoritos são os mais naturais e que, de preferência, não sejam testados em animais”, explica.

Trans
"Notei que passar pela TH não era algo que gostaria" (Arquivo Pessoal)

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