Vitiligo: entenda mais sobre essa condição e seus cuidados
- 24 de mai. de 2021
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Atualizado: 23 de jun. de 2021

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O vitiligo é uma condição dermatológica autoimune. Uma doença é considerada autoimune quando o sistema imunológico ataca e destrói células saudáveis do corpo humano. No caso do vitiligo, os melanócitos, que são as células produtoras de melanina, são destruídos pelos anticorpos, o que resulta na despigmentação da pele, gerando manchas bem delimitadas e de coloração branca leitosa.
Segundo o dermatologista Celso Lopes, especialista em vitiligo, o diagnóstico dessa condição é geralmente clínico, baseado nas características das manchas. “Raramente precisamos de biópsias para definir o diagnóstico, porém utilizamos lâmpadas especiais (chamadas de lâmpadas de Wood, que têm luzes fluorescentes) para verificar a extensão das lesões, buscando manchas que não poderiam ser vistas a olho nu. Exames complementares são geralmente solicitados para afastar outras doenças autoimunes que poderiam estar associadas”, explica.

De acordo com o especialista, os cuidados diários indicados para quem tem essa condição são o uso de protetor solar quando ocorrer exposição solar, já que, por a área das manchas não apresentar melanina, há um maior risco de ter queimaduras solares. Pacientes de pele preta devem realizar os mesmos cuidados que os de pele branca, “podendo portanto variar de acordo com outras características da pele como, por exemplo, se é mais seca ou oleosa.”
Essa doença afeta todos os gêneros e etnias, e pode ocorrer em qualquer idade, mas a maioria dos pacientes tem entre 20 a 30 anos. Ela pode se espalhar pelo corpo de maneira rápida, estabilizando-se em seguida, ou pode ter uma disseminação mais lenta, mas não traz prejuízos físicos aos indivíduos e nem é contagiosa.
Porém, mesmo assim, os pacientes que convivem com o vitiligo podem desenvolver problemas relacionados à autoestima e à autoconfiança, o que pode afetar os relacionamentos sociais, levando ao isolamento e à depressão.
A analista de Recursos Humanos, Rafaela Diniz, de 28 anos, percebeu que o seu corpo estava desenvolvendo vitiligo aos 9 anos, apresentando manchas no rosto, nos dedos dos pés, glúteos, costas, cotovelos e panturrilha. Ela aplica sabonete facial, hidratante e protetor solar em sua pele, mas admite que esquece de passar o último produto na maioria dos dias.
Para lidar com o vitiligo, ela afirma passar “maquiagem e fingir aceitação”, destacando que o tom de sua pele nunca fica uniforme e que não tem condições de adquirir cosméticos potentes que têm essa função. Além disso, situações nas quais as pessoas comentam sobre a sua pele a incomodam. “Mas acho que o pior é minha pele ser absurdamente sensível ao sol, sempre tenho queimaduras terríveis na pele (mesmo usando protetor solar). Minha autoestima sempre é muito abalada por tudo”.
A babysitter Raquel Senne, de 22 anos, começou a conviver com o vitiligo quando tinha nove anos e a condição afeta 90% de seu corpo. Ela realizou o tratamento de fototerapia, mas o interrompeu após quase dois anos “porque as manchas pareciam estar progredindo mais rápido”. Raquel observa que suas manchas ainda continuam aumentando e a rapidez dessa progressão depende de seu estado emocional. Como forma de cuidar de sua pele, utiliza protetor solar dentro de casa e não só em dias ensolarados.
O vitiligo incomoda Raquel quando ela busca por empregos ou quando está em lugares com crianças e muitas pessoas. “Na maioria das vezes tento me esconder, usando calças ou blusa comprida. Quando não é possível pelo calor, eu evito lugares com muita gente, não vou a piscinas ou praias”.
Além disso, essas situações fazem com que os pacientes utilizem cosméticos para camuflar o vitiligo, recorrendo à base, corretivo e pó compacto para atenuar as manchas. Quando a publicitária Bianca Autieri tinha 12 anos, o vitiligo começou a aparecer em seu rosto, afetando áreas como a testa, o queixo e abaixo dos olhos. Apesar de não serem muito perceptíveis, ela, que tem 21 anos atualmente, afirma que as manchas a incomodam.
Bianca lava seu rosto todas as manhãs e as noites com um sabonete líquido manipulado em uma farmácia, aplicando também hidratantes nos mesmos períodos e a pomada receitada para a sua condição. Quando ela se expõe ao sol, as manchas em seu rosto ficam rosadas, enquanto a sua face fica vermelha, o que destaca a presença da doença.

Ela aplica maquiagem em seu rosto para lidar com o vitiligo. “Mas as minhas manchas não são tão visíveis, e muitas vezes as pessoas não percebem. Eu encaro elas como minha “cicatriz” de algo que me marcou muito, então se tornaram um símbolo de força para mim. Mas graças a Deus nunca ouvi comentários maldosos, apenas perguntas sobre”, reconhece.
O vitiligo ainda não tem cura, mas há vários tratamentos que ajudam a estabilizar a doença, como os imunossupressores sistêmicos ou tópicos, imunomoduladores tópicos, antioxidantes, psoralenos, fototerapia, entre outros, como afirma o médico:
Os corticosteróides e os imunomoduladores são utilizados para bloquear esse processo e estabilizar a doença, justamente por ela ser autoimune.
Os psoralenos são substâncias que, ao serem ingeridas ou aplicadas na pele seguidas de exposição solar, desencadeiam uma reação fotoquímica que pode ajudar na repigmentação.
A fototerapia é bastante utilizada no tratamento e o tipo de equipamento deve ser escolhido de acordo com a forma clínica da doença.
Para formas generalizadas, as cabines com Luz Ultravioleta B (NB-UVB) são utilizadas, enquanto a Luz ou Laser de 308 nm (Excimer) são recomendadas para as formas mais localizadas.
Quando ocorre mais de 90% de despigmentação da pele pode-se, em alguns casos, usar despigmentantes potentes para diminuir o contraste que ficou entre a pele acometida e a pele sem manchas.
As técnicas cirúrgicas compreendem os transplantes autólogos de melanócitos, ou seja, retirados dos próprios pacientes, indicadas para casos muito restritos, nos quais as áreas afetadas são pequenas e apresentam uma estabilidade que deve durar cerca de 2 anos.
Para o dermatologista, a escolha do método de tratamento depende de vários fatores como: tempo de evolução da doença, extensão da área acometida, localização das manchas e idade do paciente, entre outros. A opção do tratamento deve sempre ser decidida juntamente com o paciente e os resultados, em geral, são muito individuais.
No entanto, os pacientes podem lidar com dificuldades durante a utilização de recursos médicos para impedir o avanço dessa condição. Rafaela conta que realizou inúmeros tratamentos com diversos medicamentos, sendo que alguns levam anos para ter resultados visíveis. “Hoje em dia não faço mais nenhum tratamento, descobri há pouco tempo que a minha filha também tem a doença e, como o tratamento é bem caro, optei por fazer apenas nela”, declara, dizendo também que sua condição nunca foi estabilizada e que suas manchas crescem ou que novas despigmentações surgem.
Maria Clara, de cinco anos, começou a desenvolver vitiligo quando tinha dois anos, sendo que as manchas são mais perceptíveis nos tornozelos, dedos dos pés e das mãos, barriga e pernas. O tratamento realizado possibilitou o “fechamento” de manchas nas axilas e nos olhos, mas a exposição ao sol e o questionamento de outras crianças incomodam Maria Clara, que conta com a ajuda da família para lidar com a condição.

Segundo Celso, “temos várias opções de tratamentos que podem ser direcionadas de acordo com a indicação, possibilidade ou viabilidade para cada paciente”. Assim, mesmo que a utilização de equipamentos de fototerapia não sejam acessíveis, o sol pode servir como uma opção para tratar a pele com vitiligo, “porém sempre com muito cuidado e orientação de um dermatologista, para evitar efeitos adversos graves como as queimaduras”.
Como não existe uma prevenção para o vitiligo, o Ministério da Saúde recomenda que pessoas que possuem familiares com essa condição realizem consultas periódicas, com o objetivo de descobrirem se estão desenvolvendo a doença. Caso estejam, essas consultas irão possibilitar que o vitiligo seja detectado precocemente e o tratamento seja iniciado o mais breve possível. Além disso, evitar vestir roupas apertadas ou que causem atrito ou pressão sobre a pele, diminuir a exposição solar e controlar o estresse são outras medidas citadas pelo órgão.
E quando falamos de aceitação?
O influenciador digital Diego Kydo, de 31 anos, descobriu que tinha essa condição em 2015 e, atualmente, quase todas as áreas de seu corpo são despigmentadas, porém, essas manchas são estabilizadas. Ele realizou dois tratamentos, que envolviam a ingestão do chá e da cápsula da planta medicinal mama-cadela e a aplicação da pomada Tarfic, mas nenhum surtiu efeito.
Em relação aos cuidados com a pele, Diego afirma ser “relaxado” , declarando que sua namorada faz um tratamento de skincare em seu rosto uma vez por semana e ele aplica um creme em seu corpo. “Mas o certo seria passar protetor solar todos os dias”, ele considera.
Para Diego, suas manchas não o incomodam mais, mas ele já sofreu com olhares de nojo e de pena quando saía de casa. Dessa forma, ele decidiu criar conteúdos nas redes sociais para ajudar pessoas que têm vitiligo e não se aceitam, trazendo assuntos que são considerados mitos e promovendo um maior entendimento sobre a doença.
O vitiligo da funcionária pública federal, Luiza Pacheco, de 28 anos, foi desenvolvido quando ela tinha 14 anos, afetando seu rosto, seios, costas, pernas, mãos, cotovelos, braços e pés. Segundo ela, as manchas variam em grau de despigmentação, mas elas, por serem muito claras ou avermelhadas, são perceptíveis.
Luiza relata que procurou atendimento médico quando percebeu o surgimento das manchas, mas sua primeira dermatologista não “deu importância" para o caso, receitando apenas um hidratante para a pele. “Em seis meses tive despigmentação quase total das pernas eu busquei outro profissional que me deu o diagnóstico de vitiligo”, Luiza relembra.
Os tratamentos indicados para Luiza (o medicamento Psoraleno e a pomada Tarfic e, depois de uns anos, o medicamento Metoxisaleno e a exposição às câmaras de luzes) apenas aliviaram o seu incômodo visual causado pelas lesões, mas não as fizeram desaparecer completamente. “Pelo contrário, diminuíram muito pouco”, afirma, lembrando que, em momentos de stress e ansiedade, as lesões aumentam de forma rápida.
Sobre cuidados com a pele, declara passar hidratante e protetor solar faciais e corporais específicos para o seu tipo de pele, além de fazer esfoliação semanalmente no rosto e no corpo com produtos recomendados por sua dermatologista.
Luiza também conta que sofria bullying quando era adolescente. “Ser apontada como ponto de referência de forma maldosa me incomodava. Também recebi apelidos como girafa e zebra. Hoje não ligo tanto para o vitiligo e encaro como uma característica que vai sempre me acompanhar”.
Ela afirma que gosta de conversar com quem foi diagnosticado com a condição e quem não tem muitos conhecimentos sobre por onde começar a se tratar. “Para desmistificar a ideia de que dói, é feio, e, claro, para indicar bons profissionais para tratar o que, para mim, é só um detalhe, mas que pode ser um pesadelo” para outros indivíduos".
A aposentada Rosemeire Santos de Jesus, de 56 anos, descobriu que tinha vitiligo aos 35 anos, sendo que essa condição afeta quase todo o seu corpo. Ela afirma que já chegou a realizar alguns tratamentos, mas os interrompeu por não ter visto resultados. Para cuidar de sua pele, ela utiliza hidrante e protetor solar. No começo, Rosemeire observa que se sentia incomodada com a doença, mas percebeu que o vitiligo era "mero detalhe". "Passei a me aceitar como eu sou e nada me incomoda, nem os olhares”.

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